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ESTIAGEM
A SECA CHEGA A LAVRAS DO SUL
Falta de chuva causa prejuízo de R$ 37,5 milhões na agricultura e na pecuária. No interior, os açudes estão secos, e os animais, magros
A situação vivida por Oliveira é a mesma da maioria dos 3 mil produtores rurais do município, que desde outubro de 2010 não sabe o que é uma chuva forte.
Na sexta-feira, o vice-prefeito de Lavras do Sul, Paulo César dos Santos (PP), decretou situação de emergência por causa da seca, após uma reunião com o vice-governador, Beto Grill (PSB). O pedido precisa ser aprovado pelo governo do Estado, o que deve ocorrer nos próximos dias. O racionamento de água ainda não afeta os moradores da zona urbana.
A estiagem na zona rural da cidade de 7,6 mil habitantes esvaziou açudes, emagreceu a maior parte das 305 mil cabeças de gado, comprometeu 20% dos 8 mil hectares de soja e provocou perdas nas culturas de arroz, milho e feijão.
– Nunca vi uma coisa (seca) assim. Meu prejuízo chega já chega a R$ 1,5 mil e vai aumentar – revela Oliveira.
De acordo com o secretário de Agricultura de Lavras do Sul, João Ari Copetti, o município já contabiliza prejuízos de 20% nas criações de gado de corte e no cultivo da soja – o que chega a um valor na casa dos R$ 37,5 milhões (R$ 30 milhões da pecuária e R$ 7,5 milhões na agricultura).
– Sem chuva, a soja mal nasce. Só à base de garoa, ela não se desenvolve. O pasto secou, e o gado baixa a fertilidade, não conseguindo repetir a cria. Além disso, o rebanho enfraquece e fica magro – lamenta o secretário.
Desde 2003, o pequeno produtor rural do distrito de Três Passos João Luiz Oliveira de Quadros, 49 anos, mais conhecido como Pingo, tira da terra o sustento da mulher Maria, 48, e do filho João Luiz, 8. O longo período de escassez de chuvas o assusta.
Três de suas vacas já morreram, e o açude que irrigava as hortas de alface, tomate e couve sumiu. Com tudo isso, Quadros pensa em novos rumos.
– Carpa-capim, jundiá, tudo se foi. A vontade que dá é de jogar tudo para o alto e voltar para a cidade. Mas amo isso aqui. Se não fosse a ajuda da prefeitura, com a água para minha horta, já tinha largado essa vida – afirma, desiludido.
A causa – Segundo o chefe da Divisão de Pesquisas Aplicadas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), Expedito Rebello, desde a década de 70, o órgão registra seca no Sul do Brasil (leia no texto da página 17). A estiagem é decorrente do fenômeno climático La Niña, que resfria as águas do Oceano Pacífico, dificultando a formação de nuvens e a ocorrência de chuvas.
– O La Niña faz com que tenhamos muita chuva no Nordeste e pouca no Sul. É uma variabilidade climática muito grande. Mas, a partir de fevereiro, temos uma previsão da volta da chuva ao Rio Grande do Sul – explica Rebello.
Mais ameno – Formigueiro é a outra cidade da Região Central que já enfrentou problemas com a falta de água, mas nada comparado a Lavras do Sul. Conforme o prefeito, João Natalício Siqueira da Silva (PP), do final de 2010 até agora, a cidade enfrentou problemas isolados.
– Tivemos de levar água em caminhões-pipa para duas ou três famílias da zona rural. Mas a chuva dos últimos dias normalizou a situação – festeja o prefeito.
ESTIAGEM
Ela veio para ficar no Estado
– Culturas de soja, por exemplo, que necessitam de 900 milímetros de chuva durante o plantio, estão com um déficit de 500 milímetros. É uma perda irreparável – garante.
O chefe do escritório da Emater de Lavras do Sul, Jorge Fabrício de Souza, lamenta as perdas na agricultura e pecuária do município, uma vez que o verão deve continuar seco. Souza ainda ressalta que os prejuízos na criação de gado, que é o carro-chefe da economia da cidade, são irreversíveis.
– Praticamente terminaram os (bovinos) em boas condições de abate. Agora, é época de reprodução, e as vacas usadas como matriz estão prejudicadas e fracas. Muitas não reproduzem. O rebanho enfrenta problemas, e não sabemos o que poderá acontecer – afirma Souza.
O chefe da Emater ainda explica que o município está localizado em uma área imaginária onde ocorre o limite da seca. De Lavras do Sul em direção ao Sul do Estado, a estiagem se agrava. Rumo ao Norte, a estiagem não existe.
O chefe da Emater faz previsões infelizmente nada otimistas parprodutores rurais como Venil de Oliveira e João de Quadros, o Pingo (leia no texto da página 16).
– O que nos preocupa é que a meteorologia projeta um verão de muita estiagem. As chuvas dos últimos dias são muito poucas para fazer algum efeito – avalia.
Em 2004 foi pior – Rebello dá um alento para as cidades da região. Segundo ele, a seca tende sempre a ser mais rigorosa no Sul do Estado, e não no Centro. E, a partir de fevereiro, os períodos de chuva devem aumentar um pouco por aqui.
O especialista diz também que a estiagem 2010/2011 deve ser menos rigorosa que a registrada na temporada 2004/2005, quando o Estado registrou um prejuízo de 10 milhões de toneladas na safra. Até agora, segundo o Inmet, as perdas estão em 1,5 milhão de toneladas:
– Neste ano, não atingiremos a temporada 2004/2005.
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