‘Os gastos acontecerão’
Helen Cabral (PT), vereadora de Santa Maria
Diário de Santa Maria ? No mês passado, a senhora se disse favorável aos 21 e alegou aumento da representatividade. Depois, ficou indecisa. Quando foi que a senhora decidiu que votaria contra os 21?
Helen Cabral ? Desde o início, eu disse que votaria pelo aumento da representatividade, desde que o povo não tivesse de pagar a conta. No entanto, criou-se uma discussão na Casa de que o número de 21 (vereadores) se dava em cima de uma determinação federal, como se, na prática, não tivesse mais nada que pudéssemos fazer. Eu não sabia disso. Quando fui me informar com o setor jurídico da Câmara, vi que poderíamos levar a discussão à população, o que mudou tudo. Além do mais, eu não imaginava que, em concomitância com essa discussão, havia uma tratativa para a construção de um novo prédio da Câmara ao custo de R$ 4 milhões, podendo chegar a R$ 8 milhões. Esse valor (de R$ 8 milhões) é porque se sabe que a área desse prédio foi projetada de forma errada. Então, agora vai ser preciso o dobro da área, o que elevará o preço em duas vezes mais. Sempre foi dito para nós (vereadores) que a Câmara tinha 7% do orçamento da prefeitura e que isso (7%) era o que gastávamos. Porém, quando me foi dito, pela Comissão Especial, que nos valemos de 4,4% do que a prefeitura nos repassa para a manutenção dos 14 vereadores e mais assessores, e que, com 21 vereadores, chegaríamos a 6%, foi preciso reavaliar e ver que o povo merece respeito.
Diário ? O que a senhora acha desses valores?
Helen ? Um prédio de R$ 8 milhões é algo muito forte. Muitas secretarias de município não têm esse valor para suas pastas. E não será com um prédio novo de quase R$ 8 milhões que vamos ter o apoio da população. Acredito que com 14 parlamentares não tenhamos necessidade dessa construção. Esse montante pode ser aplicado no município. Infelizmente, a ética e a seriedade se perderam. A população precisa ser escutada. Com isso, todos ganham, e o Legislativo sai revigorado e com crédito.
É bom representatividade, sim, mas não se pode admitir que 6%, para qualquer Câmara que seja. É um percentual que corresponde a um valor muito alto. Sem dizer que o orçamento da prefeitura é miserável, é muito pobre. E eu sigo uma lógica que é própria da minha legislatura, que é cobrar do Executivo qualquer gasto exagerado. Por várias vezes, eu tenho ido ao Ministério Público questionar valores da prefeitura quando se deu dinheiro para escolas de samba de Porto Alegre; quando foram dados R$ 11 mil para Copa de Hipismo; R$ 60 mil para Copa de Vôlei; além dos gastos com eventos como o balonismo; e os valores de desapropriação da SUCV (a prefeitura desapropriou o prédio por R$ 1,9 milhão). Não estou sendo incoerente nem fujo da minha lógica, que é a de preservar o dinheiro do contribuinte.
Diário ? O que a motivou a ficar do lado dos vereadores contra os 21?
Helen ? Sem dúvida, foi prioritária a elevação dos gastos. O próprio partido (PT) na cidade defendeu a representatividade e a democracia desde que ficasse comprovado o não aumento de gastos. Não só estou sendo coerente com a lógica e com o posicionamento do meu partido como também com um anseio da população. Certamente que muita gente vai passar a repensar o seu posicionamento agora que se sabe que os gastos acontecerão. Estou amparada em resolução do meu partido nos âmbitos municipal e estadual.
Diário ? Como a senhora está lidando com a pressão do partido? E como está a sua relação com os vereadores da bancada ? Jorge Trindade e Luiz Carlos Fort ?, que apoiam o aumento de cadeiras?
Helen ? A pressão existe obviamente de pré-candidatos, mas eu acredito que todos os meus argumentos estão bem embasados. Desde o início, o Fort e o Jorjão defenderam o aumento da representatividade, mas, assim como eu, eles também fazem parte do partido. Eu não posso falar por eles, mas diante dessa situação, e se fosse seguida a lógica do que o partido decidiu, todos (da bancada petista) teriam de votar contra, mas...
Diário ? Com a decisão tomada, a senhora teme alguma retaliação da direção do PT?
Helen ? A princípio, eu não vejo motivos para isso. Até porque eu não estou fugindo do que foi definido pelo partido. Certamente que a bancada (Helen Cabral, Jorge Trindade e Luiz Carlos Fort) será chamada antes da votação, mas não acredito que eu vá sofrer uma posição mais dura.
Diário ? Poderá haver alguma movimentação para sugerir um número intermediário, como aumentar para 17, 18 ou 19 vagas?
Helen ? Ontem (quinta-feira) foi encerrada a comissão especial que trata do tema. Tudo que tinha para tratar sobre o tema foi encerrado. Por isso, abri o meu voto. E garanto que votarei contra no dia 22 (próxima quinta-feira, quando acontece a primeira discussão e votação) e no dia 4 de outubro (data da votação final). (...) Para uma eventual mudança, seria necessário criar uma nova comissão e realizar todo o trâmite. Não há mais volta. O que pode acontecer é que, na próxima legislatura, essa discussão volte à tona, mas nesta (legislatura), não há mais possibilidade.
Diário ? No dia da audiência pública, pré-candidatos e militantes de partidos se manifestaram pela criação de mais sete cadeiras. A senhora acredita que é mesmo entendimento da população?
Helen ? (risos). Eu presidi a comissão de transporte público, e todas as audiências (públicas) que realizamos aconteciam às 19h. É neste horário que o cidadão sai de seu trabalho e pode participar. Achei muito ruim que a audiência (sobre o aumento do número de vereadores) tenha sido às 14h. Mas não se pode tirar a legitimidade de associações como a da UAC (União das Associações Comunitárias) e de eventuais pré-candidatos e de siglas partidárias. Até porque os partidos políticos também compõem a sociedade. Mas o sentimento geral da população é pelo não aumento das vagas. Foram vários os e-mails, os telefonemas e as manifestações que recebi, inclusive nas redes sociais, para que votasse contra. A pressão das comunidades com as quais eu convivo falavam em voz única pela não criação de mais cadeiras. No dia da audiência, o debate foi bem acalorado, as duas posições estavam bem definidas. Só não podemos dizer que a audiência serviu como termômetro mais apropriado para demonstrar o que reflete o sentimento da população. (...) O discurso não pode rotular de bons aqueles que votam contra ou de ruins aqueles que defendem mais cadeiras. Porém, vamos respeitar cada um com suas convicções. O que falta é compreensão da conta que o cidadão paga para que isso (aprovação de mais cadeiras) aconteça.
Diário ? Como a senhora recebe as provocações de que aqueles vereadores que são contra o aumento estariam sendo demagogos e com foco na eleição do próximo ano?
Helen ? Infelizmente, a noção do papel de um parlamentar é equivocada. Eu estou me pautando pela minha lógica, os demais (vereadores) têm suas próprias convicções. Desde a minha época de movimento sindical, estudantil, sempre levei em consideração que é preciso escutar a população. Não fazer isso é extremamente complicado. (...) São eles que pagam o meu salário e que me colocaram na condição de vereadora. Não vejo demagogia. (...) Se de fato a população se sentisse representada, haveria outra resposta. Não vou aprovar um projeto que é contra o povo. Precisamos votar pelo povo e para o povo.
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