Famílias francesas entram em conflito por quadro perdido de Monet
Equipe antitráfico de arte pesquisa documentos da Segunda Guerra Mundial para tentar encontrar algum rastro da obra
Ginette Heilbronn Moulin com seu neto Guillaume Houze em seu apartamento em Paris Foto: Jerome Sessini / International Herald Tribune/NYT
Doreen Carvajal
Ginette Heilbronn Moulin, a presidente de 85 anos da cadeia de lojas de departamentos Galeries Lafayette, está entrando com um processo contra a família Wildenstein, uma dinastia internacional de negociantes de arte franceses, afirmando que eles estão escondendo informações a respeito da obra roubada. O quadro, que pertencia à família Heilbronn, desapareceu em 1941, depois que a Gestapo saqueou o cofre bancário da família.
No verão passado, após Moulin entrar com uma queixa criminal contra os Wildenstein, as autoridades francesas ordenaram uma investigação preliminar. Uma equipe antitráfico de arte está pesquisando documentos da Segunda Guerra Mundial para tentar encontrar algum rastro da obra, Torrent de la Creuse, um estudo da confluência do Creuse com o Petite Creuse, no centro da França, realizado por Monet em 1889.
— A questão não é o preço da pintura — Moulin disse em uma entrevista em seu apartamento repleto de obras de arte.
— A questão é uma vitória contra os alemães e... — Sua voz emudeceu.
Os Wildenstein, que negociam obras de arte há cinco gerações, já negaram veementemente ter qualquer conhecimento sobre o paradeiro do quadro. No entanto, Daniel Wildenstein, especialista em Impressionismo falecido em 2001, incluiu a pintura em dois de seus amplamente reconhecidos inventários da obra de Monet. Em ambos, afirmou que a obra estaria em uma coleção particular — um proprietário anônimo, na primeira referência, e um proprietário americano, em 1996.
As suspeitas de Moulin e sua família surgiram no ano passado, quando uma investigação paralela sobre o Instituto Wildenstein, centro de pesquisa sem fins lucrativos administrado pela família, descobriu, na imponente mansão dos Wildenstein em Paris, mais de trinta obras de arte consideradas perdidas ou roubadas. Muitas delas haviam desaparecido anos antes, durante acordos de heranças familiares. Mas uma família judia disse à polícia que acreditava que uma escultura deles, recuperada na operação, poderia ter sido pilhada por nazistas, porque constava nas listas de patrimônio pós-guerra.
Guy Wildenstein, o bilionário que administra os negócios da família em Nova York, recusou-se, através de seus advogados, a comentar as acusações de Moulin. Mas ele já afirmou que o instituto nunca escondeu obras desaparecidas intencionalmente, e que o instituto simplesmente não tinha um inventário completo do que se encontrava em seus cofres.
Os advogados de Wildenstein, que é judeu, negaram veementemente que qualquer uma das obras confiscadas fosse fruto de saques nazistas.
O quadro de Monet desapareceu durante um operação da Gestapo em um cofre de banco no sudoeste da França, do qual foram roubadas 10 pinturas pertencentes ao pai de Moulin, Max Heilbronn. Heilbronn era membro da Resistência, e sua família franco-judia foi expulsa da histórica loja Galeries Lafayette do Boulevard Haussmann, em Paris, e substituída por colaboradores dos nazistas. Ele foi preso em Buchenwald junto com outros membros da Resistência, entre eles Etienne Moulin, que mais tarde casou-se com a filha de Heilbronn, Ginette, e assumiu a Galeries Lafayette.
A família já conseguiu recuperar quatro das obras roubadas, entre elas uma pintura de flores em pastel, de Renoir, que a família reconheceu quando foi colocada à venda na Christie's, em 2004. Duas paisagens de Pissaro que estavam no cofre também foram recuperadas depois da guerra, na casa de Hermann Goering, o segundo comandante de Hitler, em Berlin.
Até hoje, no entanto, mais da metade das obras de arte roubadas de famílias judias na França e na Bélgica durante a Segunda Guerra Mundial continuam desaparecidas.
O que motiva Moulin a continuar procurando depois de tantos anos?
— O quadro representa uma pouco da história da nossa família — ela disse.
— Foi meu neto que me incentivou a reagir. Ele não consegue compreender como uma coisa assim pode acontecer.
Moulin disse que, nos anos 1950, sua mãe, Paulette Heilbronn, encontrou-se com um marchand que tinha uma foto da pintura, e ele prometeu que iria recuperá-la. Mas, segundo Moulin, quando Heilbronn procurou o negociante novamente, ele disse que a obra estava nas mãos de pessoas "intocáveis".
Anos depois, a família descobriu referências à obra desaparecida nas edições de 1979 e 1996 do inventário, ou "catalogue raisonne", das obras de Monet, com cinco volumes e organizados por Daniel Wildenstein. Catálogos como esse enumeram todas as obras conhecidas e autenticadas de um artista, e servem como um tipo de aprovação oficial. Nenhum leilão, por exemplo, irá vender uma obra como sendo de Monet sem que ela esteja listada no inventário de Wildenstein. Ela afirma que a menção da obra no catálogo alimentou suspeitas dentro da família Moulin de que os Wildenstein ou estavam com a obra ou sabiam onde ela se encontrava.
Mas Moulin afirma que os Wildenstein obstruíram insistentemente as investigações da família. Há registros de que, em 2002, os advogados de Moulin pediram a Guy Wildenstein que ele a ajudasse a localizar a pintura, e que ele pediu que eles entrassem em contato com o Instituto Wildenstein, que afirmou não ter qualquer informação sobre o paradeiro do quadro.
Nos últimos meses, Guy Wildenstein já foi entrevistado no mínimo sete vezes por investigadores sobre o caso envolvendo o instituto, de acordo com fontes jurídicas francesas confidenciais. Esse caso é decorrente de um longo conflito interno da família pela posse da herança multimilionária de Daniel Wildenstein, pai de Guy Wildenstein.
Até sua morte, em 2010, a viúva de Daniel Wildenstein, Sylvia Roth, processou o enteado, Guy, diversas vezes, e acusou a família de esconder a riqueza e as obras de arte se seu marido através de fundos de investimento em contas no exterior.
— Quando ficamos sabendo dessas histórias estranhas, decidi que aquele era o momento ideal para tentar recuperar o quadro — disse Guillaume Houze, de 30 anos, neto de Moulin.
A busca pelo Monet perdido já alcançou o Metropolitan Museum of Art, em Nova York. O museu tem um quadro de Monet que é descrito como praticamente gêmeo da pintura desaparecida. A obra, Torrente do Petite Creuse, em Fresselines, foi comprada pelos Wildenstein de um colecionador particular em 1958, depois revendida a outra colecionadora particular, Adelaide Milton de Groot. Em 1967, ela doou a obra ao Met, que a lista como Corredeiras do Petite Creuse, em Fresselines.
O quadro não está em exposição, mas o museu já disponibilizou uma cópia na internet, com uma legenda que diz que a obra "é praticamente idêntica a outra pintura (coleção particular)". O Met afirma que a informação a respeito da outra pintura foi retirada do catálogo de Wildenstein.
Em meados do ano passado, a Conferência das Reclamações Materiais dos Judeus contra a Alemanha, organização com sede em Nova York cujo objetivo é organizar a restituição de bens a vítimas do Holocausto e seus herdeiros, questionou o museu sobre a procedência de sua pintura.
O museu afirmou que as pinturas são claramente diferentes. Além disso, o museu apresentou à organização uma tradução para o inglês, datilografada e sem assinatura, de uma carta em francês de 1961, de Max Heilbronn para Daniel Wildenstein, na qual Heilbronn afirma que a obra pertencente ao Met "não pode ser a que me foi roubada durante a guerra". O museu não conseguiu encontrar uma cópia da carta original.
— Não há dúvida de que esse não é o quadro — disse Harold Holzer, porta-voz do Met.
— O Met sempre disponibilizou o acesso à sua coleção para pesquisadores e estudantes e, quando necessário, para pessoas que estejam fazendo pesquisas por motivos legais. Não escondemos nada aqui.
A pessoa que talvez pudesse oferecer a maior quantidade de informações a respeito do mistério, Daniel Wildenstein, está enterrada sob dois obeliscos no cemitério de Montparnasse, aqui em Paris. Em 2001, poucos meses antes de morrer, aos 84 anos, ele foi questionado pelo advogado de Moulin sobre o motivo que o levou a declarar, no seu catálogo de 1996, que a pintura estava nas mãos de um colecionador particular.
Poucas semanas depois, uma carta foi enviada pelo Instituto Wildenstein, datada de 12 de setembro de 2001 e com o nome impresso e a assinatura de Daniel Wildenstein.
— Eu lamento — dizia a carta — que esse erro tenha sido incluído na nova edição do livro.
A carta não oferecia nenhuma outra informação sobre o paradeiro do quadro.
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