Região rural da China ainda tem templos dedicados à riqueza do passado
Históricas vilas familiares são legado dos mercadores da era dinástica
Moradores do vilarejo de Xidi assistem televisão na entrada de prédio construído em 1664 Foto: Gilles Sabrie / The New York Times
Xidi, China — Na primavera, quando as flores de colza brotam, este trecho fértil do centro da China se transforma em um mar amarelo. No verão, quando os temporais desabam, os campos pulsam com um tom verde esmeralda e águas marrons transbordam dos canais.
Mas, durante todas as estações, na região de Huizhou, na província de Anhui, as desgastadas casas de paredes brancas perduram, erguendo-se da terra como fragmentos de vasos, cada uma um testemunho da astúcia comercial e da prosperidade de antigas gerações.
Hoje considerada uma das províncias mais pobres da China, Anhui é mais conhecida por seus trabalhadores migrantes que fogem para cidades em ascensão do que por qualquer milagre econômico da própria região. No entanto, foi de seus vilarejos que vieram alguns dos mais agressivos mercadores da era dinástica, espalhando-se para províncias vizinhas na costa leste e colhendo lucros externos. Eles viam muito claramente o que outras pessoas desejavam — sal, chá e madeira, por exemplo — e passaram a dominar o comércio dessas mercadorias.
Huizhou, na região mais ao sul de Anhui, tornou-se sinônimo de empreendedorismo. Embora esse não seja mais o caso, o legado dos mercadores ainda pode ser visto nas elegantes vilas familiares de dois andares, que estão atraindo a atenção de pesquisadores, turistas e cineastas.
— As pessoas vêm aqui para ver estas casas — disse Cao Lili, uma mulher de 24 anos, natural da região, que guiava visitantes em uma tarde chuvosa pelas ruas estreitas do vilarejo de Guanlu. — Onde mais na China você encontraria esse tipo de história?
As vilas preservadas de Guanlu, um vilarejo de 400 habitantes, são típicas da região de Huizhou. Elas têm pátios internos com pilastras robustas de madeira e telas de treliça cobrindo as janelas. As janelas são voltadas para os pátios internos, e não para as ruas do vilarejo, porque os mercadores, que eram todos homens e passavam muito tempo longe de casa, não queriam que outras pessoas vissem suas riquezas — e suas esposas, concubinas e filhas. As crianças viviam no segundo andar; as esposas e concubinas tinham aposentos separados no primeiro andar.
— Muitos homens sentem falta dos dias da sociedade feudal — disse Cao, sorrindo.
As vilas mais impressionantes de Guanlu foram construídas pelos oito filhos de um empresário de sobrenome Wang, que, durante o fim da dinastia Qing, que terminou em 1911, fizeram fortuna vendendo cera para velas. Segundo Cao, as vilas dos filhos de Wang ocupavam 6.000 metros quadrados ao todo, ou cerca de dois terços do vilarejo. As casas agora foram divididas entre várias famílias, entre elas algumas que descendem da família Wang original.
Aqui em Xidi, um vilarejo famoso pelo seu formato de barco, cerca de 1.000 habitantes moram nas 300 residências aos pés de exuberantes montes. Pessoas de fora da cidade podem ser vistas nos finais de semana, rondando as ruas estreitas para apreciar alguns dos templos de dois andares construídos com dinheiro dos mercadores. Um casal de Shanghai transformou uma das casas em uma popular pousada rústica, a Pig's Inn.
Entre os séculos XIII e XX, Huizhou era conhecida em toda a China por suas montanhas e seus mercadores, de acordo com a pesquisadora Nancy Zeng Berliner, curadora de arte chinesa do Peabody Essex Museum, em Salem, no estado americano de Massachusetts, que, em 1997, fechou um acordo com os moradores de Huizhou para transportar uma vila tradicional, a Yin Yu Tang, para o museu.
Em seu livro sobre a vila, Berliner escreve que a terra dura de Huizhou dificultava muito o plantio de arroz, forçando os homens da região a se tornarem mercadores, para trocar outros bens por arroz. Os rios da região ajudaram nas trocas, especialmente o Rio Xin'an, que segue de Huizhou, para o leste, até Hangzhou, uma cidade movimentada da província de Zhejiang.
— O nome Huizhou ficou ligado para sempre à palavra mercador — escreveu Berliner. Ruas comerciais em pontos distantes da China eram chamadas de Rua dos Mercadores Huizhou.
— Uma cultura e um estilo de vida únicos se desenvolveram nessa sociedade majoritariamente mercadora — ela disse.
Era uma sociedade onde os mercadores procuravam "imitar os estilos de vida mais respeitados dos acadêmicos, literatos e urbanitas; e onde a riqueza desses mercadores era investida em grandes casas para suas esposas, filhos e descendentes, e magníficos salões de clã para seus ancestrais".
Como em muitas regiões rurais da China, um único clã poderia dominar a maioria dos vilarejos, e cada clã estava ligado a um tipo de negócio específico. Uma família de sobrenome Hu gerou renomados mercadores de sal, que se espalharam para as províncias costeiras próximas, como Zhejiang, e para Shanghai. Outra família Hu, do condado de Jixi, vendia chá; eles são os ancestrais do presidente Hu Jintao, cujo pai, enquanto ainda morava em Jiangsu, tentou expandir os negócios de chá para Shanghai e Zhejiang, e exportou folhas de chá para a Europa e os Estado Unidos, segundo escreveu Lee Khoon Choy, jornalista e político aposentado cingapuriano, no livro "Pioneers of Modern China" (Pioneiros da China Moderna).
A riqueza não pertencia a todos os habitantes de Huizhou. Alguns braços do clã Huang, por exemplo, eram compostos de agricultores, e muitos de seus descendentes ainda têm empregos de baixa remuneração hoje em dia.
— Quem tem dinheiro, tem — disse Huang Jianjun, um motorista de 38 anos que trabalha para uma casa de fazenda local. — Quem não tem dinheiro, não tem.
Muitos habitantes locais migraram para Taiwan e Hong Kong em 1949, quando os comunistas assumiram o poder na China. Algumas casas foram derrubadas nos anos 1960 e 1970, ou tiveram o interior destruído pelos Guardas Vermelhos da Revolução Cultural.
Hoje, os habitantes locais estão lutando para preservar as casas, para atrair os turistas. Dezenas de vilarejos prontos para estampar cartões postais se espalham pelos campos, e empresas de turismo nos vilarejos mais famosos, como Xidi e Hongcun, cobram pela entrada de turistas. Zhang Yimou, o mais famoso diretor de cinema da China, rodou "Ju Dou" (Amor e Sedução), um filme de 1990 sobre uma paixão proibida, no vilarejo de Nanping, que é controlado pelo clã Ye e conta com oito notáveis salões ancestrais.
O diretor taiwanês-americano Ang Lee veio depois para filmar uma cena de luta de "Wo hu cang long" (O Tigre e o Dragão). Um famoso ator de Hong Kong que atua no filme, Chow Yun-fat, voltou para a região três vezes desde a produção do filme, segundo Wu Qiuyue, habitante de Hongcun de 24 anos que trabalha como guia turística em Nanping.
Segundo ela, desde que Zhang colocou Nanping no mapa, entre 30 e 40 filmes e programas de televisão já foram filmados no vilarejo.
— Eles sabiam construir casas no passado — ela disse, "de uma maneira que é impossível encontrar hoje em dia".
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