"Deixar para a última hora não vai funcionar", alerta pesquisadora sobre atraso nas obras da Copa
Sul-africana Zahira Asmal está no Brasil para lançar livro com as conclusões tiradas do Mundial de 2010
Zahira participou de palestra na manhã desta quinta na
ESPM
A pesquisadora Zahira Asmal estuda, desde antes da Copa do Mundo de 2010, o
impacto nas cidades sul-africanas que receberam o evento, há quase dois
anos.
No Brasil para lançar um livro com as principais conclusões da pesquisa, a especialista conta que o Mundial ajudou uma nação em reconstrução desde o final do apartheid, na década de 90, a fortalecer sua identidade — e deixou, nas cidades, um legado de espaços de convivência que era buscado desde então.
Confira os principais trechos da entrevista concedida a Zero Hora antes da palestra da manhã desta quinta-feira, na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em Porto Alegre.
Zero Hora — O que mudou na África do Sul com a Copa?
Zahira Asmal — As cidades do nosso país, por conta do Apartheid, ainda eram muito divididas. A Copa ajudou na tarefa contínua de mudar isso, porque se começou a pensar a África do Sul de uma forma diferente. Uma das maiores mudanças foi o sentido de identidade. A população se sentiu mais integrada à sociedade, pôde definir melhor o que significa ser sul-africano. Outro grande impacto foi nos espaços públicos. Antes, praças e parques eram usados para separar as pessoas, cada raça para um lado, em vez de uni-las.
ZH — Nos espaços públicos, o que se fez?
Zahira — Eles se tornaram seguros e inclusivos. Na Cidade do Cabo, agora há um parque próximo ao estádio, onde antes era um terreno baldio. Como há banheiros públicos, água para beber, brinquedos para crianças, palestras e exposições sobre a flora da área, as pessoas adotaram o lugar. Não precisa haver soldados patrulhando o local com armas: bastou que as pessoas começassem a frequentar para que a violência diminuísse.
ZH — As intervenções urbanas seguiram um planejamento central ou ficou a cargo de cada cidade?
Zahira — Houve um planejamento conjunto desde o início, comandado pelo governo federal. A Copa foi a primeira vez em que todos sentaram juntos — governos, designers, profissionais, arquitetos, engenheiros — para criar algo novo na África do Sul.
ZH — Com quanta antecedência esse planejamento foi feito?
Zahira — Anos antes, apesar de várias coisas terem ficado prontas dias antes da Copa. Meu conselho ao Brasil é que não dá para esperar, senão acaba sendo um desserviço para o país. Até agora, me parece que os brasileiros não têm muita certeza de por que o governo buscou a Copa do Mundo. Parecem se importar mais com o time do que o impacto futuro da Copa nas cidades.
ZH — No Brasil, há poucas obras iniciadas além dos estádios. Isso afeta o envolvimento da população?
Zahira — Afeta muito. O governo precisa estar muito perto da mídia e do público. Deveriam reunir a imprensa a cada duas semanas e informar: "nas obras, estamos assim, nos transportes, assim". Deveriam estar mostrando para a sociedade quais são, na prática, as oportunidades de negócios. Atualizações frequentes são fundamentais. Senão, a sensação de que isso é um evento da Fifa, e não só do Brasil, não vai se dissipar.
ZH — Na África do Sul, o que não funcionou?
Zahira — O governo precisava ter informado melhor sobre as mudanças para melhor na vida das pessoas. Levá-las pela mão, passo a passo, sobre o que estava sendo feito. Em segundo lugar, deveriam ter ido à Fifa e dito: "sabemos que vocês têm seus patrocinadores e que a Copa é um negócio, mas quais oportunidades os pequenos e médios negócios podem ter nesse evento?". E levado a informação para o público. Em vez disso, a Fifa passou a Copa processando as pessoas. É do governo, é dos brasileiros, a responsabilidade de lidar bem com isso, de mostrar as oportunidades comerciais para 2014.
ZH — Qual é o seu conselho aos brasileiros?
Zahira — A África do Sul estava atrasada, mas o Brasil está um pouco mais. É claro, aqui há a cultura de fazer tudo na última hora. Mas isso não vai funcionar para a Copa se a ideia é deixar um legado. Tudo vai ficar pronto, não tenho dúvidas de que será um ótimo evento, mas a questão é: vai deixar uma mudança na sociedade? Isso só acontecerá se o trabalho for acelerado.
No Brasil para lançar um livro com as principais conclusões da pesquisa, a especialista conta que o Mundial ajudou uma nação em reconstrução desde o final do apartheid, na década de 90, a fortalecer sua identidade — e deixou, nas cidades, um legado de espaços de convivência que era buscado desde então.
Confira os principais trechos da entrevista concedida a Zero Hora antes da palestra da manhã desta quinta-feira, na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), em Porto Alegre.
Zero Hora — O que mudou na África do Sul com a Copa?
Zahira Asmal — As cidades do nosso país, por conta do Apartheid, ainda eram muito divididas. A Copa ajudou na tarefa contínua de mudar isso, porque se começou a pensar a África do Sul de uma forma diferente. Uma das maiores mudanças foi o sentido de identidade. A população se sentiu mais integrada à sociedade, pôde definir melhor o que significa ser sul-africano. Outro grande impacto foi nos espaços públicos. Antes, praças e parques eram usados para separar as pessoas, cada raça para um lado, em vez de uni-las.
ZH — Nos espaços públicos, o que se fez?
Zahira — Eles se tornaram seguros e inclusivos. Na Cidade do Cabo, agora há um parque próximo ao estádio, onde antes era um terreno baldio. Como há banheiros públicos, água para beber, brinquedos para crianças, palestras e exposições sobre a flora da área, as pessoas adotaram o lugar. Não precisa haver soldados patrulhando o local com armas: bastou que as pessoas começassem a frequentar para que a violência diminuísse.
ZH — As intervenções urbanas seguiram um planejamento central ou ficou a cargo de cada cidade?
Zahira — Houve um planejamento conjunto desde o início, comandado pelo governo federal. A Copa foi a primeira vez em que todos sentaram juntos — governos, designers, profissionais, arquitetos, engenheiros — para criar algo novo na África do Sul.
ZH — Com quanta antecedência esse planejamento foi feito?
Zahira — Anos antes, apesar de várias coisas terem ficado prontas dias antes da Copa. Meu conselho ao Brasil é que não dá para esperar, senão acaba sendo um desserviço para o país. Até agora, me parece que os brasileiros não têm muita certeza de por que o governo buscou a Copa do Mundo. Parecem se importar mais com o time do que o impacto futuro da Copa nas cidades.
ZH — No Brasil, há poucas obras iniciadas além dos estádios. Isso afeta o envolvimento da população?
Zahira — Afeta muito. O governo precisa estar muito perto da mídia e do público. Deveriam reunir a imprensa a cada duas semanas e informar: "nas obras, estamos assim, nos transportes, assim". Deveriam estar mostrando para a sociedade quais são, na prática, as oportunidades de negócios. Atualizações frequentes são fundamentais. Senão, a sensação de que isso é um evento da Fifa, e não só do Brasil, não vai se dissipar.
ZH — Na África do Sul, o que não funcionou?
Zahira — O governo precisava ter informado melhor sobre as mudanças para melhor na vida das pessoas. Levá-las pela mão, passo a passo, sobre o que estava sendo feito. Em segundo lugar, deveriam ter ido à Fifa e dito: "sabemos que vocês têm seus patrocinadores e que a Copa é um negócio, mas quais oportunidades os pequenos e médios negócios podem ter nesse evento?". E levado a informação para o público. Em vez disso, a Fifa passou a Copa processando as pessoas. É do governo, é dos brasileiros, a responsabilidade de lidar bem com isso, de mostrar as oportunidades comerciais para 2014.
ZH — Qual é o seu conselho aos brasileiros?
Zahira — A África do Sul estava atrasada, mas o Brasil está um pouco mais. É claro, aqui há a cultura de fazer tudo na última hora. Mas isso não vai funcionar para a Copa se a ideia é deixar um legado. Tudo vai ficar pronto, não tenho dúvidas de que será um ótimo evento, mas a questão é: vai deixar uma mudança na sociedade? Isso só acontecerá se o trabalho for acelerado.
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