Após 10 anos, gaúcho adotado revê irmã
Levado para a França com o irmão mais novo, Jair retornou a Porto Alegre para encontrar a irmã
Sem falar a mesma língua, irmãos precisaram de ajuda para se comunicar
Não fazia nem um ano que Daiane Aparecida Vieira da Silva havia deixado a Febem, quando, em 2002, dois de seus irmãos foram adotados. Malaquias, com três anos, e Jair, seis, seguiram para a França e lá cresceram com a chance de estudarem nas melhores escolas e com amor de pai e mãe. Daiane enfrentou a infância e adolescência em Porto Alegre amparada pela sorte e pelas regras dos agentes do Estado.
Os destinos separados se encontraram em uma manhã de sol da última semana entre quatro paredes do Juizado da Infância e Juventude de Porto Alegre. Daiane, hoje com 29 anos, e Jair, 16, se olhavam, riam e choravam. Ele, que só fala francês, não entendia uma palavra do que a irmã biológica dizia. E vice-versa. As psicólogas e assistentes sociais que viabilizaram a aproximação ajudavam com a tradução, sob o olhar atento do pai adotivo, Philippe Gaboriau, 54 anos.
A ideia do retorno a Porto Alegre para um mergulho de duas semanas nas raízes do filho foi do próprio Philippe. Depois da separação dos pais, há cinco anos, Jair andava muito cabisbaixo, passando por dificuldades nos estudos e ainda mais reservado do que é comum entre os adolescentes. Malaquias, o irmão de 13 anos, e Irene Ruellan, a mãe, de 56, adoraram a ideia.
— O plano era fazer essa viagem com a família quando Jair fizesse 18 anos. Mas sentimos a necessidade de adiantar o passeio e queríamos que fosse uma coisa nossa — contou Philippe.
Depois de três meses na França, os dois irmãos já haviam deletado a língua-mãe do vocabulário.
Jair tem lembranças apenas dos dois anos em que viveu no abrigo. Poucas. Também nunca esqueceu do que sentia enquanto sonhava em ter uma família. Na época em que ganharam uma, foram tema de reportagem em ZH.
Naquele maio de 2002, teve o primeiro contato com a família Gaboriau, no quarto de um hotel nos arredores da Usina do Gasômetro. Enfrentaram a língua como a primeira barreira da aproximação. Deixaram para expressar os sentimentos mais tarde, primeiro trataram de lidar com situações concretas. Para isso, criaram técnicas valiosas: na hora do almoço, diziam comer-manger, no passeio, sair-sortir, e assim, colando o francês ao português delinearam um vocabulário próprio.
— Tenho a sensação de que nunca falei português e sempre falei francês — conta Jair.
Philippe, que é prefeito de Dompierre-Sur-Yon, uma cidade de 4,2 mil habitantes, no Estado de Vandée, e Irene, assistente social, levaram os meninos para uma residência ampla construída em um terreno de um hectare e uma casa na árvore projetada para os futuros donos. Aqueles que nem lar tinham agora poderiam desfrutar de duas casas: uma para viver, outra para brincar, a 400 quilômetros de Paris.
Atingiu 1m80cm rodeado de brinquedos e videogames. Usa roupas de grifes e tem o comportamento universal dos jovens: fones de ouvidos e a avidez pela internet. O paladar é aguçado: lagosta grelhada e codorna com ervilhas são os preferidos dos irmãos.
Na escola, aprendem também inglês e alemão. O jeito brasileiro de Jair gastar energia correndo assustou os colegas, mas amigos nunca lhe faltaram. Adora futebol. Na cidade onde a mãe mora, La Roche-Sur-Yon, a oito quilômetros de distância da casa do pai, é conhecido pelos dribles, inspirados no ídolo Ronaldinho. E é o craque que mais tem mexido com Jair em seu tour por Porto Alegre. Está com ingressos comprados para Grêmio x Atlético-MG, domingo, no Olímpico. Tem gastado horas idealizando um encontro com o ídolo.
Philippe Gaboriau (no centro) veio da França para adotar os irmãos Malaquias (à esq.) e Jair (à dir.)
Foto: Arquivo Pessoal
Cinco semanas na Capital durante o processo de adoção
Na França, são raras as crianças disponíveis para adoção. Por isso, Philippe e Irene entraram na lista de espera de uma entidade chamada Médicos de Mundo. Disseram as características dos filhos que pretendiam e, passados alguns meses, a ficha dos irmãos foi apresentada aos pais. Entusiasmados, viajaram até o Rio Grande do Sul para o encontro em 2002.
Ficaram cinco semanas hospedados em um hotel na Capital, conforme previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e voltaram com as crianças para a França.
O Brasil segue as normas previstas pela Convenção de Haia para adoção internacional. A previsão da convenção é de que apenas sejam encaminhadas para o Exterior por meio de parcerias com entidades registradas no Ministério da Justiça, aqueles que não tiverem possibilidade de adoção em território nacional.
O caminho de luta de Daiane
Enquanto os irmãos que foram abençoados pela adoção viviam ares europeus, passavam férias em família e corriam pelo jardim extenso da casa francesa, no Brasil, a 13 horas de voo, a vida adulta de Daiane Aparecida Vieira da Silva, irmã biológica de Jair e Malaquias, se desenrolava envolta em luta e dor. A mulher de 29 anos, que hoje ganha um salário mínimo como auxiliar de serviços gerais em uma agência bancária da Capital, cresceu abrigada na antiga Febem, hoje Fundação de Proteção Especial. Na ficha criminal, apenas um delito: ser desprovida de um núcleo familiar.
Viveu com a mãe, andarilha, até os oito anos. A falta de paradeiro fez com que fosse levada pelo Juizado de Menores, hoje Conselho Tutelar, a um abrigo.
— Lembro do dia em que a assistente social chegou, me ofereceu um sanduíche, e me levou embora — conta Daiane, que usa as gargalhadas para espantar os infortúnios.
E não foram poucos. Com 11 anos, passou por uma tentativa de adoção. Um ano depois, retornou ao poder do Estado. Terminou o Ensino Médio no tempo certo. Nunca repetiu um ano. Trabalho ela conhece desde os 14.
Ficou no lar onde foi criada até pouco além dos 18 anos. Precisou ganhar o mundo. Alugou uma casa na Lomba do Pinheiro por
R$ 200, onde mora até hoje. Chegou a casar e, quando completou 24 anos, nasceu Rhian. Depois se separou do pai da criança e hoje cria o menino sozinha. Não tem primos, tios, avós, pais.
— Faço de tudo para ser uma boa mãe. Decidi ter filho bem tarde. Deus me livre de ter um monte como a minha mãe para depois andarem aí, um em cada canto.
O bônus é ser preenchida pelo amor da criança. O ônus: toda a batalha que enfrenta para manter o lar. Faz questão de repetir que nunca roubou. Ressalta que usou a dor como antídoto do mal para não sucumbir.
Daiane chora sempre que pensa nesse vazio que carrega. Seu maior sonho é reunir os irmãos, tentar uma família. Mas cada vez fica mais difícil. O destino tomado por Malaquias e Jair não é novidade. Antes, a irmã Cláudia, hoje com 22 anos, e Mara, 13, também foram levadas por uma família francesa. Ismael, 27 anos, jogador de futebol, que hoje mora em Frederico Westphalen, roda o mundo atrás de oportunidade. Nunca está por perto.
— Levei o Philippe e o Jair para passearem no Centro. Mas eu não sabia como explicar as coisas. Me virava em mímicas. Na hora da despedida começou a dar uma agonia. Precisava ir embora para pegar meu filho na escola. Eles não entendiam. Aí lembrei do filme do ET e imitava a cena que ele dizia telefone-minha casa — diverte-se Daiane.
Acomodou os dois em um táxi rumo ao bairro Bom Fim, onde estão hospedados. Partiu em um ônibus para a Lomba do Pinheiro, onde mora. O encontro só fez reforçar sonhos antigos: fortalecer a família em uma casa fornecida pela prefeitura, pela qual luta há seis anos, não abrir mão de cursar Administração de Empresas e aguardar o dia em que será chamada no concurso para a Fundação de Proteção Especial. Lá pretende recomeçar um novo ciclo, de amor, para salvar, assim como ela foi salva, um menor abandonado
Os destinos separados se encontraram em uma manhã de sol da última semana entre quatro paredes do Juizado da Infância e Juventude de Porto Alegre. Daiane, hoje com 29 anos, e Jair, 16, se olhavam, riam e choravam. Ele, que só fala francês, não entendia uma palavra do que a irmã biológica dizia. E vice-versa. As psicólogas e assistentes sociais que viabilizaram a aproximação ajudavam com a tradução, sob o olhar atento do pai adotivo, Philippe Gaboriau, 54 anos.
A ideia do retorno a Porto Alegre para um mergulho de duas semanas nas raízes do filho foi do próprio Philippe. Depois da separação dos pais, há cinco anos, Jair andava muito cabisbaixo, passando por dificuldades nos estudos e ainda mais reservado do que é comum entre os adolescentes. Malaquias, o irmão de 13 anos, e Irene Ruellan, a mãe, de 56, adoraram a ideia.
— O plano era fazer essa viagem com a família quando Jair fizesse 18 anos. Mas sentimos a necessidade de adiantar o passeio e queríamos que fosse uma coisa nossa — contou Philippe.
Depois de três meses na França, os dois irmãos já haviam deletado a língua-mãe do vocabulário.
Jair tem lembranças apenas dos dois anos em que viveu no abrigo. Poucas. Também nunca esqueceu do que sentia enquanto sonhava em ter uma família. Na época em que ganharam uma, foram tema de reportagem em ZH.
Naquele maio de 2002, teve o primeiro contato com a família Gaboriau, no quarto de um hotel nos arredores da Usina do Gasômetro. Enfrentaram a língua como a primeira barreira da aproximação. Deixaram para expressar os sentimentos mais tarde, primeiro trataram de lidar com situações concretas. Para isso, criaram técnicas valiosas: na hora do almoço, diziam comer-manger, no passeio, sair-sortir, e assim, colando o francês ao português delinearam um vocabulário próprio.
— Tenho a sensação de que nunca falei português e sempre falei francês — conta Jair.
Philippe, que é prefeito de Dompierre-Sur-Yon, uma cidade de 4,2 mil habitantes, no Estado de Vandée, e Irene, assistente social, levaram os meninos para uma residência ampla construída em um terreno de um hectare e uma casa na árvore projetada para os futuros donos. Aqueles que nem lar tinham agora poderiam desfrutar de duas casas: uma para viver, outra para brincar, a 400 quilômetros de Paris.
Atingiu 1m80cm rodeado de brinquedos e videogames. Usa roupas de grifes e tem o comportamento universal dos jovens: fones de ouvidos e a avidez pela internet. O paladar é aguçado: lagosta grelhada e codorna com ervilhas são os preferidos dos irmãos.
Na escola, aprendem também inglês e alemão. O jeito brasileiro de Jair gastar energia correndo assustou os colegas, mas amigos nunca lhe faltaram. Adora futebol. Na cidade onde a mãe mora, La Roche-Sur-Yon, a oito quilômetros de distância da casa do pai, é conhecido pelos dribles, inspirados no ídolo Ronaldinho. E é o craque que mais tem mexido com Jair em seu tour por Porto Alegre. Está com ingressos comprados para Grêmio x Atlético-MG, domingo, no Olímpico. Tem gastado horas idealizando um encontro com o ídolo.
Philippe Gaboriau (no centro) veio da França para adotar os irmãos Malaquias (à esq.) e Jair (à dir.)
Foto: Arquivo Pessoal
Cinco semanas na Capital durante o processo de adoção
Na França, são raras as crianças disponíveis para adoção. Por isso, Philippe e Irene entraram na lista de espera de uma entidade chamada Médicos de Mundo. Disseram as características dos filhos que pretendiam e, passados alguns meses, a ficha dos irmãos foi apresentada aos pais. Entusiasmados, viajaram até o Rio Grande do Sul para o encontro em 2002.
Ficaram cinco semanas hospedados em um hotel na Capital, conforme previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), e voltaram com as crianças para a França.
O Brasil segue as normas previstas pela Convenção de Haia para adoção internacional. A previsão da convenção é de que apenas sejam encaminhadas para o Exterior por meio de parcerias com entidades registradas no Ministério da Justiça, aqueles que não tiverem possibilidade de adoção em território nacional.
O caminho de luta de Daiane
Enquanto os irmãos que foram abençoados pela adoção viviam ares europeus, passavam férias em família e corriam pelo jardim extenso da casa francesa, no Brasil, a 13 horas de voo, a vida adulta de Daiane Aparecida Vieira da Silva, irmã biológica de Jair e Malaquias, se desenrolava envolta em luta e dor. A mulher de 29 anos, que hoje ganha um salário mínimo como auxiliar de serviços gerais em uma agência bancária da Capital, cresceu abrigada na antiga Febem, hoje Fundação de Proteção Especial. Na ficha criminal, apenas um delito: ser desprovida de um núcleo familiar.
Viveu com a mãe, andarilha, até os oito anos. A falta de paradeiro fez com que fosse levada pelo Juizado de Menores, hoje Conselho Tutelar, a um abrigo.
— Lembro do dia em que a assistente social chegou, me ofereceu um sanduíche, e me levou embora — conta Daiane, que usa as gargalhadas para espantar os infortúnios.
E não foram poucos. Com 11 anos, passou por uma tentativa de adoção. Um ano depois, retornou ao poder do Estado. Terminou o Ensino Médio no tempo certo. Nunca repetiu um ano. Trabalho ela conhece desde os 14.
Ficou no lar onde foi criada até pouco além dos 18 anos. Precisou ganhar o mundo. Alugou uma casa na Lomba do Pinheiro por
R$ 200, onde mora até hoje. Chegou a casar e, quando completou 24 anos, nasceu Rhian. Depois se separou do pai da criança e hoje cria o menino sozinha. Não tem primos, tios, avós, pais.
— Faço de tudo para ser uma boa mãe. Decidi ter filho bem tarde. Deus me livre de ter um monte como a minha mãe para depois andarem aí, um em cada canto.
O bônus é ser preenchida pelo amor da criança. O ônus: toda a batalha que enfrenta para manter o lar. Faz questão de repetir que nunca roubou. Ressalta que usou a dor como antídoto do mal para não sucumbir.
Daiane chora sempre que pensa nesse vazio que carrega. Seu maior sonho é reunir os irmãos, tentar uma família. Mas cada vez fica mais difícil. O destino tomado por Malaquias e Jair não é novidade. Antes, a irmã Cláudia, hoje com 22 anos, e Mara, 13, também foram levadas por uma família francesa. Ismael, 27 anos, jogador de futebol, que hoje mora em Frederico Westphalen, roda o mundo atrás de oportunidade. Nunca está por perto.
— Levei o Philippe e o Jair para passearem no Centro. Mas eu não sabia como explicar as coisas. Me virava em mímicas. Na hora da despedida começou a dar uma agonia. Precisava ir embora para pegar meu filho na escola. Eles não entendiam. Aí lembrei do filme do ET e imitava a cena que ele dizia telefone-minha casa — diverte-se Daiane.
Acomodou os dois em um táxi rumo ao bairro Bom Fim, onde estão hospedados. Partiu em um ônibus para a Lomba do Pinheiro, onde mora. O encontro só fez reforçar sonhos antigos: fortalecer a família em uma casa fornecida pela prefeitura, pela qual luta há seis anos, não abrir mão de cursar Administração de Empresas e aguardar o dia em que será chamada no concurso para a Fundação de Proteção Especial. Lá pretende recomeçar um novo ciclo, de amor, para salvar, assim como ela foi salva, um menor abandonado
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