quinta-feira, 12 de abril de 2012

Sul-africanos negros ainda sofrem preconceito na capital do país


Apesar do fim do apartheid, Cidade do Cabo é considerada o último bastião do reinado branco


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Sul-africanos negros ainda sofrem preconceito na capital do país Per-Anders Pettersson/The New York Times
Cidade do Cabo é a única metrópole importante da África onde onde negros não são maioria Foto: Per-Anders Pettersson / The New York Times

Lydia Polgreen


Cidade do Cabo, África do Sul — Para uma quantidade incontável de turistas, a Cidade do Cabo é um símbolo inegável da beleza e do potencial da África do Sul pós-apartheid. Além das suas lindas paisagens e seus ótimos vinhos, a própria logomarca da cidade — o contorno da majestosa Montanha da Mesa sobrepondo um arco-íris — enfatiza a sua histórica mistura de raças e culturas, e o seu morador mais famoso, Desmond Tutu, é reverenciado como um símbolo de tolerância, inclusão e perdão.
No entanto, para muitos sul-africanos negros, a cidade representa algo muito diferente: o último bastião do reinado branco.
— Não importa o quão famoso ou rico você é, você continuará sendo um cidadão de segunda categoria se for um negro na Cidade do Cabo — escreveu a cantora e artista performática Lindiwe Suttle em sua conta de Twitter, em um desafio a Helen Zille, a líder branca do partido que governa a cidade.
Depois que a postagem gerou uma onda de apoio de celebridades negras e outras pessoas dentro do mundo do Twitter, Zille rebateu a crítica:

— Quanta baboseira.
Mas a história não acabou assim. A batalha via Twitter, que começou há alguns meses e contou com os "hashtags" rivais, #capetownisracist (Cidade do Cabo é racista) e #capetownisawesome (Cidade do Cabo é maravilhosa), deu início a um momento de questionamento nesta cidade de 3,5 milhões de habitantes no extremo sul da África: será que o célebre arco-íris da nação termina onde a montanha encontra o mar?
Esta é a única grande metrópole da África do Sul onde os negros não são a maioria, e a cidade continua muito dividida. O legado especialmente violento da maneira como o apartheid foi imposto na cidade deixou cicatrizes profundas, que ainda demarcam a geografia local: brancos no centro da cidade e nos seus subúrbios internos nas encostas das montanhas, pessoas de outras cores nas distantes "townships" e em Cape Flats. As políticas do apartheid efetivamente proibiam que os negros morassem ou até trabalhassem na cidade, dando às pessoas consideradas "de cor", ou miscigenadas, que hoje representam o maior grupo étnico da cidade, prioridade sobre os negros em relação a empregos e moradia.
Além da história, há a política atual da cidade. O Cabo Ocidental é a única província do país que não é governada pelo Congresso Nacional Africano. A província é governada pela Aliança Democrática, de Zille, que surgiu de um movimento antiapartheid de brancos, mas que acabou incluindo antigos membros do Partido Nacional, que criou o apartheid.
Em um discurso no ano passado, em uma "township" negra perto da Cidade do Cabo, o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, disse que a cidade tinha "um sistema extremamente pautado no apartheid", segundo notícias dos jornais locais sobre o discurso. O Congresso Nacional Africano está tentando conquistar a província, e a Aliança Democrática tem rejeitado as afirmações de que a Cidade do Cabo é racista, afirmando que elas não passam de estratégia política.
— A cidade é considerada racista pelo Congresso Nacional Africano porque é a única metrópole do país que eles não controlam — disse Patricia de Lille, prefeita da Cidade do Cabo.
A prefeitura da cidade está tentando mudar o que de Lille chama de "desenvolvimento espacial do apartheid". Duas importantes avenidas foram rebatizadas em homenagem a Nelson Mandela, o primeiro presidente negro da África do Sul, e Helen Suzman, uma mulher branca que se opôs fervorosamente ao apartheid. As duas ruas se cruzam no centro da cidade, em uma esquina cujo propósito é simbolizar a esperança da integração.
No entanto, um estudo realizado por pesquisadores da Universidade da Cidade do Cabo, em dezembro de 2010, concluiu que moradores negros encontravam poucas oportunidades de negócios na Cidade do Cabo, e que as empresas tinham dificuldades em recrutá-los e mantê-los. O estudo concluiu que, no Cabo Ocidental, "os africanos quase sempre são menos bem-sucedidos que os brancos em melhorar suas carreiras, criando um efeito de 'barreira invisível'".
Mas os escritórios não são os únicos lugares onde os negros não se sentem bem-vindos. Muitas das praias mais exclusivas do Atlântico, que os negros não tinham permissão de frequentar no passado, ainda costumam atrair uma maioria de brancos, aumentando mais ainda a segregação.
— Odeio ir para Camps Bay, porque todos lá são brancos — disse Yoliswa Dwane sobre um subúrbio de alta classe na costa do Atlântico, que costumava ser exclusivo para brancos. — Não parece que o país é integrado.
A discriminação que os sul-africanos afirmam vivenciar não é a mesma discriminação de punho de ferro da era do apartheid. Ela é mais sutil, e às vezes difícil de identificar.
Alguns afirmam que já foram informados de que não havia mesas livres em restaurantes vazios, ou que não havia carros disponíveis em locadoras de automóveis cheias de veículos. Outros afirmam que seus vizinhos pediram para que eles não abatessem animais em ocasiões festivas, e algumas mulheres afirmam que já foram confundidas com prostitutas só por estarem bebendo em bares cheios de brancos.
E, em uma cidade onde as desigualdades econômicas são enormes, a classe, de certa maneira, virou um substituto para a raça.
Osiame Molefe, um jornalista, escreveu recentemente sobre as vezes que foi barrado em uma casa noturna.
— Na terceira (e última) vez que fui barrado no Asoka, um bar e lounge em Kloof Street, um representante do estabelecimento escreveu: 'Posso garantir que o Asoka não adota uma política de admissão racista! Admitimos, porém, que nossa política é baseada no conceito de classe e na superficialidade — infelizmente, é isso que nossos fregueses esperam e desejam. E, realisticamente falando, essa é a infeliz realidade da sociedade em que vivemos!'.
Ele só não disse quais são os critérios usados para determinar a "classe" de uma pessoa.
É difícil conciliar a profunda segregação racial da Cidade do Cabo moderna e o seu histórico como um dos maiores caldeirões culturais do mundo. No século XVII, a Companhia das Índias Orientais, da Holanda, trouxe escravos e prisioneiros de Moçambique e Madagascar, assim como da Índia e da Indonésia, para a África do Sul. Os grupos se casaram entre si. O sangue branco inevitavelmente também entrou na mistura de genes.
Segundo historiadores, durante os séculos XVII e XVIII, as barreiras raciais existiam, mas eram menos rígidas.
— A pigmentação não era uma barreira absoluta para alguém que quisesse subir na vida — disse Vivian Bickford-Smith, historiadora da Universidade da Cidade do Cabo. — Havia um ditado: 'O dinheiro embranquece'.
Um dos primeiros governadores do Cabo, Simon van der Stel, era miscigenado.
Porém, no final do século XIX, atitudes pseudocientíficas sobre raça haviam entrado em voga, junto com uma ideologia popular sobre a hierarquia das raças, na qual os negros africanos ficavam em último lugar.
Quando o Partido Nacional assumiu o poder em 1948 e declarou sua nova política de apartheid, a separação entre as raças foi oficializada. Pessoas que viviam em bairros misturados, como o District 6, perto do centro da cidade, foram forçadas a deixar suas casas e se mudar para cidades e "townships" distantes e segregadas em Cape Flats, longe da cidade.
Os negros eram tão pouco bem-vindos na Cidade do Cabo que as pessoas muitas vezes acreditavam que nenhum negro era originalmente de lá. A família de Geoffrey Mamputa vive na Cidade do Cabo desde a metade do século XIX, mas até hoje as pessoas ainda perguntam onde fica a sua casa, apesar de, em 2007, o número de negros na cidade ser praticamente o dobro do de brancos.
— Quando digo que sou da Cidade do Cabo, as pessoas sempre respondem, 'Mas nenhum negro é da Cidade do Cabo — disse Mamputa. — Os africanos contribuem com a discriminação, porque se veem como forasteiros. Eles estão criando essa ideia de que aqui não é nosso lugar.
As tensões raciais aumentaram à medida que pessoas "de cor" começaram a receber tratamento preferencial, uma estratégia criada para dividir as minorias e aumentar o poder dos governantes. Durante os anos 1970 e 1980, quando a luta contra o apartheid esquentou, muitas pessoas "de cor" rejeitaram essa categoria, escolhendo a identidade negra. Estudantes e professores da Universidade do Cabo Ocidental, que o governo do apartheid havia estabelecido como um instituição "de cor", usaram essa autoidentificação para rejeitar a rotulagem do apartheid.
— Uma das respostas à imposição de categorias raciais foi a rejeição delas — disse Suren Pillay, professora da universidade.
Mas esse período durou pouco. Em 1994, os votos das pessoas "de cor", em sua maioria, foram para o Partido Nacional, que havia sido o arquiteto do apartheid. E hoje em dia, no campus da Universidade do Cabo Ocidental, um tipo de segregação voluntária ressurgiu, e as raças andam separadas.
— As pessoas não se misturam muito — disse Nokwanda Khanyile, uma estudante de administração de 21 anos, de Durban. — As pessoas 'de cor' andam juntas. Os brancos também.
Como muitos jovens negros, Khanyile não pensa em permanecer na Cidade do Cabo para tentar construir uma carreira nos negócios.
— A Cidade do Cabo é racista — ela disse. — Todos sabem disso.

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