Empresas gaúchas reduzem lucros
Agravamento da crise na Europa deve adiar novos investimentos da indústria e a retomada do crescimento
A Randon, que acaba de anunciar investimento de R$ 2,5
bilhões para os próximos cinco anos, espera uma recuperação plena do mercado
apenas a partir de 2015
Uma grande interrogação paira sobre os planos de negócios das
principais empresas gaúchas para o segundo semestre. O agravamento da situação
na Europa, com o risco cada vez maior de a Grécia deixar a zona do euro, e a
desaceleração do crescimento da China, que ameaça contagiar seus vizinhos,
tornam incerto o cenário para o restante do ano.
Se no Brasil se acumulam medidas para estimular a economia -
nos próximos dias, o governo deve anunciar uma nova rodada de incentivos ao
crescimento -, a situação mundial dos últimos dias indica um ambiente menos
promissor aos negócios.
- Há uma grande preocupação dos empresários com a falta de
demanda dentro e fora do país - afirma José Fernandes Martins, presidente da
Associação Nacional dos Fabricantes de Ônibus e membro do conselho de
administração da Marcopolo.
Não é apenas das empresas brasileiras a preocupação. Em todo o
mundo, a indústria freia a produção. A capacidade ociosa do setor siderúrgico já
chega a 30% do volume mundial. Portanto, cautela é a palavra da vez diante da
incerteza.
A própria Randon, que na semana passada anunciou investimento
de R$ 2,5 bilhões para os próximos cinco anos, espera uma recuperação plena do
mercado apenas em três ou quatro anos, reconhece o presidente David Randon.
O primeiro trimestre foi de boas vendas, mas lucro menor.
Levantamento exclusivo feito pela Corretora Solidus para Zero Hora mostra que,
enquanto o faturamento das 10 empresas gaúchas com maior valor de mercado
cresceu quase 11% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período do ano
anterior, o lucro líquido caiu, em média, 4,4%.
- A indústria gaúcha sente a recessão na Europa e nos Estados
Unidos. Por outro lado, o dólar na casa dos R$ 2 pode melhorar a competitividade
no Exterior nos próximos meses - avalia Matias Dieterich, diretor de Análise de
Investimentos da Solidus.
Recuperação deve vir só no final do ano
Em um ano pouco generoso para as grandes empresas, que dependem
de altas escalas de venda e economia global aquecida para fechar contratos, as
oportunidades para melhorar os resultados devem surgir apenas no final deste
ano. O agravamento da crise na Europa empurrará para mais adiante a recuperação
que, no final do ano passado, esperava-se que viesse no início do segundo
semestre de 2012.
- Poderá haver uma postergação dos investimentos da indústria e
da retomada do crescimento, mas não um cancelamento - afirma Túlio Zamin,
presidente do Banrisul.
Quando a indústria não investe, os efeitos cascata na economia
são conhecidos: parada nas contratações, reajustes salariais mais modestos e
redução dos negócios para empresas que prestam serviços. Em resumo, a economia
gira mais lentamente – o mercado já revisa para baixo suas projeções de
crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), que deve avançar menos de 3% neste
ano.
No início do ano, o Banrisul apostava em uma recuperação da
economia para julho. Adiou a projeção em dois trimestres.
- No final deste ano, a situação do crédito e da economia deve
estar normalizada - prevê o presidente do Banrisul.
Há quem aposte em uma retomada mais lenta, especialmente dentre
os que dependem do mercado externo. David Randon, presidente do grupo Randon,
coloca suas fichas em um reaquecimento dos países desenvolvidos apenas a partir
de 2015.
- Estamos acreditando numa retomada dos Estados Unidos e da
Europa para daqui a três ou quatro anos. Neste ano, as montadoras estão
projetando uma queda nas vendas de quase 30% em relação a 2011 - afirma
Randon.
Será o prazo para que os investimentos anunciados pela Randon
na semana passada comecem a sair do papel. A empresa investirá R$ 1,1 bilhão no
Rio Grande do Sul, principalmente para ampliar e modernizar as linhas
produtivas. Na atual conjuntura, diversificar negócios ganha importância: a
Randon poderá direcionar parte de seus aportes para erguer fábrica de
componentes para a indústria naval.
- Embora as grandes empresas gaúchas tenham uma exposição forte
ao mercado externo, há oportunidades de crescimento interessantes dentro do
país - afirma Carlos Müller, analista da Geral Investimentos.
Faturamento sobe, mas lucro cai no trimestre
Aumento do custo da mão de obra e das matérias-primas e
desaquecimento no mercado mundial têm pressionado as margens das principais
empresas gaúchas listadas na BMFBovespa. Levantamento da corretora Solidus
mostra que, enquanto a receita total das 10 companhias com maior valor de
mercado (número de ações multiplicado pelo preço) cresceu 10,3% no primeiro
trimestre deste ano em relação a igual período do ano anterior, o lucro líquido
somado caiu 1,4%. Só entram no estudo companhias de capital aberto.
- Há um grande efeito do mercado externo nos resultados das
três maiores empresas gaúchas na bolsa: Gerdau, Randon e Marcopolo. Algumas
tiveram dificuldade para manter as margens - afirma Matias Dieterich, diretor de
análise de investimentos da Corretora Solidus.
O setor industrial, que depende de exportações e teve a
concorrência de importados, sofreu em tal cenário. Um exemplo é a Randon, cujo
lucro caiu 72% no período. Na empresa de Caxias do Sul, os resultados foram
afetados também pela antecipação das encomendas no final do ano passado, por
conta da exigência da Europa por motores menos poluentes (tecnologia chamada
Euro 5), que passou a valer neste ano.
Também pesou no índice médio das companhias gaúchas a queda de
5% no lucro trimestral da Gerdau, que corresponde a quase metade de todo
resultado do grupo. Com muitos negócios no Exterior, a empresa sofreu com a
desaceleração do mercado asiático e ainda se viu obrigada a apertar as margens
no Brasil, diante do risco de perder espaço para os importados.
O aumento de faturamento das gaúchas em um momento de incerteza
deve ser visto com otimismo, avalia Marco Antonio dos Santos Martins, presidente
da Associação dos Analistas e Profissionais do Mercado de Capitais da Região Sul
(Apimec-Sul). O indicador mostra que as empresas do Estado têm sido
bem-sucedidas em manter sua participação no mercado.
- Isso é fundamental no longo prazo, pois mostra que as
empresas estão preparadas para retomar as margens quando o cenário estiver mais
favorável - explica Martins.
Nenhum comentário:
Postar um comentário